De acordo com a abordagem sócio histórica russa, o ser humano se forma e entende o seu derredor através de três vias: evolução biológica, o desenvolvimento histórico-cultural e o desenvolvimento individual. Logo, segundo essa linha, a criança é diferente de um adulto não só fisicamente mas também psicologicamente. Vygotsky certa vez afirmou que “o adulto avalia a criança a partir de si próprio, numa espécie de cegueira de quem quer ver algo olhando para si.” Em se tratando acerca desta problemática, o autor também afirmou “Se nos interrogamos sobre qual é o seu mundo conhecemos também como ele é.”(Vigotski, 1987), dando, com esta consideração, um alerta para a especificidade do devir infantil.
Sobre o devir-criança, Deleuze sugere um novo modo de reorganizar duas dimensões, onde a imaginação supera estas limitações impostas pela racionalização. “nada se faz pela imaginação, tudo se faz na imaginação. Ela nem mesmo é uma faculdade de formar idéias; a produção da idéia pela imaginação é tão-só uma reprodução da impressão na imaginação. (…)é o movimento de idéias, o conjunto de suas ações e reações. (…) Como liame de idéias, ela é o movimento que percorre o universo, engendrando dragões de fogo, cavalos alados, gigantes monstruosos.” (Deleuze, 2001:13) A criança não estaria simplesmente presa ao que os seus olhos vêem realmente, mas criam, através de sua imaginação, uma outra dimensão, o que por vezes pode parecer um déficit mental visto por um adulto. “Ela (a criança) efetivamente vê um pedaço de pau, mas percebe uma boneca, ela imprime aos objetos mais primitivos aquelas qualidades que são determinadas pelo seu desejo, pela sua experiência, pela sua fantasia” (Vygotsky, 1987)
Alice no País das Maravilhas é um filme de animação, lançado pela Disney em 1951, baseado na obra de Lewis Carroll, de 1864, onde a protagonista, Alice, uma menina curiosa e cansada de seu mundo monótono, segue o apressado Coelho Branco, acaba caindo no maluco País das Maravilhas e conhece personagens como os irmãos gêmeos Tweedle-Dee e Tweedle-Dum, o Gato Risonho, a Lagarta, toma chá com a Lebre Maluca e o Chapeleiro Louco e participa de um jogo de crocket com a Rainha de Copas.
Tudo começa quando Alice e sua irmã mais velha vão juntas ao parque, sentar na grama e ler livros: “Alice estava começando a ficar muito cansada de estar sentada ao lado de sua irmã e não ter nada para fazer: uma vez ou duas ela dava uma olhadinha no livro que a irmã lia, mas não havia figuras ou diálogos nele e ‘para que serve um livro’, pensou Alice, ‘sem figuras nem diálogos?’ Então, ela pensava consigo mesma (tão bem quanto era possível naquele dia quente que a deixava sonolenta e estúpida) se o prazer de fazer um colar de margaridas era mais forte do que o esforço de ter de levantar e colher as margaridas, quando subitamente um Coelho Branco com olhos cor-de-rosa passou correndo perto dela.” (Lewis Carroll 1864)
Observa-se, desde o início, o fato de que a pequena Alice não estava simplesmente desatenta ao que a sua irmã fazia, como também pensava em algo muito mais longe, como a utilidade de um livro sem figuras. Podemos também registrar o simples detalhe de um coelho falante passar ao seu lado, segundo a própria garota. Ao final da animação, quando Alice se envolve em grandes confusões e não tem mais para onde ir, o telespectador se vê diante de uma menina sonhadora, que simplesmente adormeceu no meio do passeio com sua irmã. Contudo, apesar de estamos diante de um sonho, não podemos deixar de lado a poderosa imaginação de Alice e um claro exemplo do devir-criança explicado por Deleuze.
Na versão da animação, podemos ver a repreensão dada pela mulher que estava com Alice no parque devido ao fato de a menina ter adormecido no meio da leitura do livro, quando na versão original do livro de Carroll, a menina é simplesmente admirada por sua imaginação, o oposto do que aconteceria diante das teorias do desenvolvimento, onde a criança é subjulgada pela maturidade de um adulto. “Finalmente, ela (irmã de Alice) imaginou como sua irmãzinha, no futuro, transformar-se-ia em uma mulher adulta: e como ela iria manter, através da sua maturidade o mesmo coração simples e afetuoso da sua infância: como também ela sempre estaria cercada de criancinhas e faria os olhos delas brilharem com muitas histórias estranhas, talvez até mesmo com o sonho do País das Maravilhas de há muito tempo atrás; como ela adoraria compartilhar com suas tristezas simples e alegrar-se com suas brincadeiras ingênuas, lembrando-se da sua própria infância e daqueles felizes dias de verão.” (Lewis Carroll)
Alice retrata as crianças do hoje, antes do vídeo game, da Internet, da televisão, que já, desde tão cedo penetram em suas vidas e as faz crescer mais rápido, fazendo-as cair no grande mundo da racionalização de um adulto, o mesmo mundo que as julga de uma maneira tão cega. O que antes eram livros com gravuras, hoje são Playstation e MSN que conduzem e ditam a vida das crianças. Alice foi um exemplo (a historia foi baseada em fatos reais) de criança num mundo de criança, onde a dimensão real está camuflada por sentimentos de alegria e esperança.
[c.soares]
Referências:
